quarta-feira, 15 de julho de 2026

O Manancial e a Tempestade

As bênçãos coroam a cabeça dos justos, mas a boca dos ímpios abriga a violência … Os sábios de coração aceitam mandamentos, mas a boca do insensato o leva à ruína … Aquele que pisca maliciosamente causa tristeza, e a boca do insensato o leva à ruína. A boca do justo é fonte de vida, mas a boca dos ímpios abriga a violência. O ódio provoca dissensão, mas o amor cobre todos os pecados. A sabedoria está nos lábios dos que têm discernimento, mas a vara é para as costas daquele que não tem juízo. Os sábios acumulam conhecimento, mas a boca do insensato é um convite à ruína … Quem esconde o ódio tem lábios mentirosos, e quem espalha calúnia é tolo. Quando são muitas as palavras o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato. A língua dos justos é prata escolhida, mas o coração dos ímpios quase não tem valor …  As palavras dos justos dão sustento a muitos, mas os insensatos morrem por falta de juízo. O tolo encontra prazer na má conduta, mas o homem cheio de entendimento deleita-se na sabedoria … A boca do justo produz sabedoria, mas a língua perversa será extirpada. Os lábios do justo sabem o que é próprio, mas a boca dos ímpios só conhece a perversidade. Provérbios 10:6, 8, 10-14, 18-21, 23, 31-32

O Condomínio “Altos da Boa Vista” era, na superfície, um lugar pacífico. Mas por baixo da fachada de jardins bem cuidados, o ódio, como um vazamento invisível, começava a excitar brigas. E no centro de tudo, estavam dois homens: Otávio, o novo síndico, e Gilberto, o morador do 503, um homem cuja boca era uma tempestade esperando para acontecer.

Gilberto era um mestre da maldade velada. Para ele, semear a discórdia era um divertimento. Ele encobria seu ódio com lábios falsos, aproximando-se dos vizinhos com uma preocupação fingida.

“Você viu o valor do novo orçamento do Otávio? Um absurdo! Sabe-se lá para onde vai todo esse dinheiro… “, ele sussurrava no elevador, piscando os olhos com malícia, plantando a semente da desconfiança. Ele tinha lábios tolos, e cada palavra sua era uma pá a mais cavando a ruína da harmonia do prédio.

Otávio, um engenheiro aposentado que assumiu o cargo por um genuíno desejo de servir, logo sentiu o impacto. As pessoas o paravam nos corredores com acusações veladas, baseadas nas meias-verdades de Gilberto. Ele poderia ter reagido com raiva, mas era um sábio. Ele aceitava a crítica, mesmo quando injusta.

“Obrigado por trazer isso a minha atenção”, ele respondia com calma. “Vou preparar um relatório detalhado de cada gasto e apresentar na próxima reunião. A transparência é a melhor política.”

A boca de Otávio era um manancial de vida. Onde Gilberto jogava gasolina, Otávio trazia a água da sensatez. Ele sabia que, na multidão de palavras, não faltam erros, então, media cada comunicado, cada resposta. Seus lábios, como os do justo, sabiam o que agradava: a verdade dita com respeito. Ele passou a fazer reuniões mensais abertas, não apenas para apresentar contas, mas para ouvir.

“O que podemos melhorar juntos?”, ele perguntava, entesourando o conhecimento que veio da experiência dos moradores.

A campanha de difamação de Gilberto se intensificou. Ele criou um grupo de WhatsApp chamado “De Olho no Síndico”, que rapidamente se tornou um tribunal de inquisição digital, uma fonte de destruição iminente para a reputação de Otávio. Gilberto postava fotos de uma lâmpada queimada no corredor como prova de “negligência”, interpretava cada decisão de Otávio como um ato de tirania ou corrupção.

A situação chegou a um ponto crítico quando um cano mestre estourou na garagem durante uma madrugada, inundando vários carros. Era o caos. Otávio foi acordado às 3h da manhã e, em minutos, já estava lá, de galochas, coordenando a equipe de manutenção, acalmando os moradores desesperados.

Gilberto, de seu apartamento, viu a cena pela janela. E seu divertimento foi cruel. Ele começou a filmar, a mandar áudios para o grupo.

“Vejam o desastre! É a incompetência personificada! Anos pagando condomínio para isso! Cadê o dinheiro da manutenção preventiva que ele prometeu?”

No entanto, a crise que deveria ser a ruína de Otávio se tornou sua redenção. Enquanto a boca de Gilberto jorrava críticas, a boca de Otávio produzia sabedoria prática. Ele organizou um rodízio de vagas para os carros que não foram atingidos. Conseguiu, através de um contato, um desconto com uma oficina para os reparos. Em 48 horas, a situação estava controlada.

Na reunião de emergência convocada na semana seguinte, o salão estava lotado, a tensão era palpável. Gilberto se levantou, pronto para seu discurso acusatório. Mas antes que pudesse falar, Matilda, uma senhora que morava no prédio há muitos anos, pediu a palavra.

“Eu só queria agradecer ao Otávio”, disse ela, a voz firme. “No meio do caos, ele nos trouxe calma. No meio da confusão, ele nos trouxe soluções. Há meses, ouvimos muitas palavras que só serviram para nos colocar uns contra os outros. Mas na hora do aperto, vimos que as palavras que realmente importam são as que constroem, não as que destroem.”

Um a um, outros moradores começaram a concordar. As pessoas que haviam sido envenenadas pela desconfiança de Gilberto agora viam a verdade. Ele foi pego de surpresa, tentou argumentar, mas suas palavras agora soavam vazias, ocas. Ele caiu, não por um ataque, mas pelo peso de sua própria insensatez.

Humilhado, Gilberto se calou. Naquele dia, a comunidade começou a se curar. Eles aprenderam a discernir entre o barulho da confusão e a voz da sabedoria. E Otávio, o homem cujas palavras eram preciosas, continuou seu trabalho, provando que um manancial de vida pode, eventualmente, apagar qualquer incêndio que a boca de um tolo tente começar.

(Feito com IA)

Este conto é parte do meu livro Sabedoria Diária

https://books2read.com/u/baOx5v

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