O Senhor não deixa o justo passar fome, mas frustra a ambição dos ímpios … A memória deixada pelos justos será uma bênção, mas o nome dos ímpios apodrecerá … Quem anda com integridade anda com segurança, mas quem segue veredas tortuosas será descoberto … Quem acolhe a disciplina mostra o caminho da vida, mas quem ignora a repreensão desencaminha outros … O que o ímpio teme lhe acontecerá; o que os justos desejam lhes será concedido. Passada a tempestade, o ímpio já não existe, mas o justo permanece firme para sempre … O temor do Senhor prolonga a vida, mas a vida do ímpio é abreviada. O que o justo almeja redunda em alegria, mas as esperanças dos ímpios dão em nada. O caminho do Senhor é o refúgio dos íntegros, mas é a ruína dos que praticam o mal. Os justos jamais serão desarraigados, mas os ímpios pouco duram na terra. Provérbios 10:3, 7, 9, 17, 24-25, 27-30
Dez anos longe de casa criam uma névoa sobre as memórias. Ao retornar para a pequena Águas Claras, Valdir, agora um homem de trinta anos, sentia-se um arqueólogo de sua própria infância. A cidade havia mudado, mas os fantasmas do passado permaneciam. E nenhum fantasma era maior que o de Ernani Gusmão.
Ernani foi o homem mais poderoso da cidade. Dono do frigorífico, o maior empregador da região, ele governava Águas Claras com mão de ferro. Valdir se lembrava dele como uma figura temida, um homem cujo desejo parecia inabalável. Se Ernani queria um terreno, ele o conseguia. Se um funcionário o desafiava, era destruído. Sua prosperidade parecia zombar da ideia de justiça. O temor que ele inspirava, no entanto, era o temor que viria sobre ele. Ele vivia seguro em sua riqueza, mas nunca em sinceridade. Seus caminhos eram incorretos, e todos sabiam, mas ninguém ousava falar.
A primeira parada de Valdir foi o cemitério, para visitar o túmulo dos avós. Ao caminhar pelas lápides, ele passou pelo mausoléu opulento da família Gusmão. O mármore era imponente, mas estava coberto de folhas secas e teias de aranha. Ernani havia falecido há cinco anos. Valdir se deu conta de algo estranho: em dois dias na cidade, ninguém havia mencionado seu nome. Era como se, após sua morte, uma conspiração de silêncio o tivesse engolido. Era como se o nome daquele homem nunca tivesse existido. O nome de Ernani não apenas apodreceu; foi enterrado sob o peso do alívio coletivo.
Sua segunda parada foi na antiga biblioteca da praça, seu refúgio na adolescência. Lá, ele encontrou um contraste gritante. Na parede de entrada, havia uma placa de bronze simples e polida: “Biblioteca Municipal Jorge Valença - Em memória de um homem que plantou árvores e ideias.”
Jorge Valença. O nome trouxe um calor imediato ao coração de Valdir. Jorge foi o oposto de Ernani. Um professor de história e dono de uma pequena livraria, ele era um homem de posses modestas, mas de uma integridade inabalável. Ele andava em sinceridade, e por isso andava seguro. Todos na cidade o conheciam não pelo que ele tinha, mas pelo que ele era. Ele guardava a conhecimento e ensinava o caminho para a vida as gerações de jovens, incluindo Valdir.
Enquanto folheava os livros, Valdir começou a ver o “fundamento eterno” que Jorge havia deixado. A bibliotecária, uma jovem que foi aluna de Jorge, contou com entusiasmo sobre o novo clube do livro. O jardineiro que cuidava da praça era um ex-aluno problemático que Jorge havia tomado sob sua asa. A esperança do justo resulta em alegria, e a alegria plantada por Jorge ainda florescia por toda a cidade.
À tarde, Valdir caminhou até a beira do rio. Ele se lembrou de uma grande tempestade, anos atrás, que quase inundou a cidade. A enchente destruiu várias empresas na parte baixa, incluindo uma das serrarias de fachada de Ernani Gusmão. O império de Ernani, construído sobre a ganância, não tinha raízes.
Mas a casa de Jorge, que ficava numa pequena colina, permaneceu intacta. E Valdir se lembrou de seu professor, no dia seguinte à enchente, não se preocupando com seus próprios bens, mas organizando mutirões para ajudar os desabrigados, sua alma justa alimentada não por comida, mas por pelo propósito de servir e ajudar.
No final do dia, sentado em um banco na praça, sob a sombra de um ipê que ele viu Jorge plantar, Valdir entendeu. O temor do Senhor, que Jorge vivia em sua humildade e serviço, de fato prolonga os dias – não necessariamente no calendário, mas no legado, na memória abençoada que se recusa a morrer. A esperança de Ernani, depositada em sua própria força, morreu com ele. A esperança de Jorge, depositada em Deus e nas pessoas, tornou-se a alegria de uma cidade inteira.
O homem poderoso que perverteu seus caminhos foi, no fim, “conhecido” e apagado. O homem simples que andou em sinceridade deixou um fundamento que nem o tempo, nem as tempestades, poderiam abalar. E Valdir, respirando o ar de sua cidade natal, sentiu-se profundamente grato, não pelo homem que todos temiam, mas pelo homem cujo legado o ensinou a viver.
(Feito com IA)
Este conto é parte do meu livro Sabedoria Diária






