Por sua sabedoria o Senhor lançou os alicerces da terra, por seu entendimento fixou no lugar os céus; por seu conhecimento as fontes profundas se rompem, e as nuvens gotejam o orvalho. Provérbios 3:19-20
Dra. Helena Neves vivia com os olhos voltados para os céus. Como astrofísica, seu trabalho era decifrar os segredos do cosmos. Em seu laboratório, cercada por telescópios de última geração e telas que exibiam galáxias distantes, ela buscava a grande Teoria de Tudo — uma única e elegante equação que explicasse o universo.
Para ela, o universo era um mecanismo de precisão impressionante, mas acidental. Uma consequência de leis físicas e acaso cósmico. A ideia de um “Fundador”, de uma “Sabedoria” por trás de tudo, era, para ela, uma hipótese poética que a ciência já havia superado. Ela buscava a inteligência que preparou os céus, mas acreditava que essa inteligência era o próprio conjunto de leis matemáticas, não uma Mente por trás delas.
Seu pai, um botânico aposentado que vivia no interior, representava o oposto de sua visão de mundo. Ele encontrava o divino não em quasares distantes, mas no orvalho que se formava sobre uma pétala de rosa ao amanhecer.
“Você procura por uma assinatura grandiosa nas estrelas, minha filha”, ele lhe disse em uma de suas raras visitas. “Mas o Artista assina Sua obra em todos os lugares, dos abismos do oceano ao ciclo da chuva.”
Helena sorria com afeto, mas com uma ponta de condescendência. Era a visão simples de um homem que estudava plantas, não a complexa busca de quem estudava a origem do tempo e do espaço.
A crise de Helena não foi causada por um buraco negro, mas por um pequeno pedaço de papel. Um exame médico. O diagnóstico era incerto, uma anomalia em suas células que os médicos não conseguiam classificar. De repente, a mulher que mapeava o universo se viu perdida dentro do território desconhecido de seu próprio corpo.
A incerteza a corroía. A precisão matemática que regia sua vida profissional não oferecia consolo. Pela primeira vez, a vastidão do universo não lhe parecia magnífica, mas aterrorizantemente fria e indiferente.
Num fim de semana, buscando refúgio, ela voltou para a casa do pai. Sentia-se exausta, frágil. Na manhã seguinte, antes do sol nascer, seu pai a acordou.
“Venha ver uma coisa”, ele disse, com a empolgação de um menino.
Ele a levou para seu jardim. A grama estava coberta por um véu prateado de orvalho. Cada folha, cada teia de aranha, era adornada com minúsculas gotas de água que brilhavam como diamantes sob a primeira luz.
“Olhe, Helena”, disse o pai, com a voz baixa. “As nuvens destilaram o orvalho. Um processo que você pode explicar com a física da condensação. Mas eu vejo como um presente. Uma prova de que, mesmo depois da noite mais escura, a manhã sempre chega com refrigério. É o conhecimento de Deus em ação, cuidando das coisas pequenas.”
Helena olhou para aquela beleza silenciosa. Ela, que passava as noites perscrutando a violência de estrelas em colapso a bilhões de anos-luz de distância, nunca havia parado para realmente ver a maravilha delicada que acontecia em seu próprio quintal.
“O mesmo Deus”, continuou seu pai, “cuja sabedoria fundou a terra e estabeleceu as leis que você tanto estuda, é o mesmo cujo conhecimento garante que o orvalho se forme. A assinatura Dele não está apenas no tamanho, mas também no detalhe. Na precisão de uma órbita galáctica e na perfeição de uma gota d’água.”
Naquele momento, em meio à simplicidade do jardim, a busca de Helena mudou. Ela percebeu que passara a vida inteira lendo um livro magnífico, maravilhada com a complexidade da gramática e a estrutura das frases, mas se recusando a admitir que havia um Autor.
A jornada de sua doença seria longa, mas ela não estava mais sozinha na imensidão fria do cosmos. Ela começou a ver a mesma Mão que estabeleceu os céus cuidando das minúcias de sua vida. A sabedoria não era uma equação a ser descoberta, mas um Artista a ser conhecido. E Sua assinatura, ela finalmente entendeu, estava em tudo, desde a majestade das estrelas até a promessa silenciosa do orvalho da manhã.
(Feito com IA)
Este conto é parte do meu livro Sabedoria Diária


Nenhum comentário:
Postar um comentário